Depois de ter lançado em Salvador da Baia o III Festival Mundial de Artes Negras, o Brasil pretende estar presente com 2.000 participantes no Fesman no Senegal. Uma delegação faraónica que representa apenas uma gota no oceano da estratégia da cooperação brasileira mas é reveladora da dimensão da ambição do Brasil no Continente Negro.
África sempre foi uma das prioridades do Governo de Lula da Silva que tem obtido resultados sem precedentes na história do país que conta com cerca de 45 por cento de população de origem africana (posicionando-se logo a seguir à Nigéria como o segundo país do planeta com a maior população africana), resultado da nefasta herança do tráfico negreiro. «Nós achamos que o Brasil, os Estados Unidos e a União Europeia têm dívidas com o continente africano» afirmou sem preconceitos Lula da Silva, fazendo alusão ao passado esclavagista do Brasil, mas posicionando também equitativamente o seu país ao lado do gigante norte-americano e do Velho Continente perante África.
«Voltar-se para África» foi a palavra de ordem lançada por Lula da Silva quando tomou posse em 2003. Multiplicou as representações diplomáticas e Brasília está hoje presente com embaixadas em 34 países dos 54 que conta o continente. As trocas comerciais entre o Brasil e África dispararam de 5 bilhões para 26 bilhões USD representando hoje 7 por cento do total da balança exterior brasileira. Em seis anos tornou-se no presidente brasileiro que mais vezes se deslocou ao continente africano, contando com mais de uma dezena de visitas oficiais.
Em paralelo o Governo de Lula da Silva tem repercutido a sua estratégia política africana numa acção reconciliação interna da sociedade brasileira, traduzindo-se num combate às desigualdades das minorias e ao racismo. Criando assim um novo conceito de simbiose da política exterior que se funde com interesse social interior.
Em África reconhecem a força da penetração brasileira. O país da bandeira «verde e amarela» transformou radicalmente a sua imagem e de um país de «samba, praia e amazonas» tornou-se numa potência credível com uma acção de cooperação concreta e continua. Consequentemente os africanos não consideram hoje o Brasil como um país emergente ou um Estado em vias de desenvolvimento. O Brasil é equiparado com os EUA, favorecido pelo facto de ser um país do eixo sul, que ultrapassou crises sociais idênticas, e com uma cultura de raiz comum. A proximidade geográfica com o continente africano, desde sempre ignorada, é agora também destacada.
Perspicazmente o Brasil desenvolveu indústrias e tecnologias que se adaptam reciprocamente ao cenário brasileiro e africano, onde partilham as mesmas necessidades sanitárias, financeiras, tecnológicas. Mas, África e o Brasil têm também preocupações capitais comuns: segurança, combate ao narcotráfico, defesa das minorias e rivalidades de carácter étnico, combate à pobreza e desigualdades, desenvolvimento urbanístico e das infra-estruturas, preservação florestal e ambiental, energias alternativas e petróleo, mas principalmente o combate à prepotência dos países mais ricos. Mais-valias que fazem parte integrante das bagagens dos diplomatas e cooperantes brasileiros em África, os «soldados de elite» da parceria sul-sul que progressivamente conquistam o terreno dos «amigos incómodos» e reais concorrentes como a China ou a Índia.
Ou seja, a linguagem e o «jeito» brasileiro são um espelho para África, argumentos que propulsionam o Brasil para o lugar de «país irmão» com o potencial e pretensão de se tornar cada vez mais no «embaixador e advogado» da África subsariana no planeta. «É tempo de o Brasil e a África aplicarem novas regras de cooperação econômica sem a intervenção estrangeira» disse Lula distanciando abertamente e radicalmente os antigos intermediários do Brasil e o Continente Negro. Esta declaração surge como o «Grito do Ipiranga em África». Daí que foi sem surpresa que Lula da Silva foi o único convidado de honra na XIII cimeira da União Africana, UA, em Sirte na Líbia.
Um posicionamento que poderá favorecer o Brasil, antes que termine o último mandato de Lula em Dezembro de 2010, na conquista de um assento permanente no Conselho de Segurança, no quadro das reformas desejadas nas Nações Unidas.
Mas a par com a política do Itamaraty está também a popularidade planetária que o presidente goza. Com uma naturalidade desconcertante Lula transmite às populações pobres africanas que qualquer simples cidadão, com perseverança, pode ascender democraticamente à cúpula de um dos maiores Estados. Como prova... tem a sua própria história e ascensão. Uma lição indirecta de democracia.
Por outro lado o carisma de Lula da Silva não cativa apenas as populações mais modestas. «A presença do presidente Lula sempre capitaliza para todo mundo. Os líderes dos países mais ricos querem aparecer na foto com o presidente Lula. É um presidente popular» conta Celso Amorim, Ministro das Relações exteriores brasileiro. Uma realidade que hoje é apenas rivalizada por Barack Obama.
Outro factor pouco realçado da projecção de Lula da Silva, consequentemente presente na política externa do seu Governo, é que o presidente brasileiro não se preocupa com o «politicamente correcto» dando prioridade ao «humanamente correcto». Em Paris, na UNESCO, condenou severamente o Golpe de Estado nas Honduras, e pouco antes considerara em África o ditador líbio, Muamar Kaddafi, como: «Meu amigo, meu irmão e lider», permanecendo contudo inflexível defensor dos direitos humanos. Tentou não incomodar o governo do Sudão, mas também não se opôs a uma resolução a favor de novas investigações sobre direitos humanos neste país enquanto lembra que o mundo não pode esquecer a situação no Chade.
Discretamente e sem ondas o Brasil encontrou a fórmula de se destacar e impor-se em Africa e no fechado clube dos países mais poderosos do mundo. Lula da Silva é hoje um dos chefes de estado mais populares do planeta, como sublinhou o primeiro-ministro português, José Sócrates. Mas também é líder temido pôs em questão e revolucionou os métodos monolíticos de cooperação dos países tradicionalmente presentes em África.
«He’s the man. I love this guy» (do inglês, «Este é o homem, adoro este homem») disse Barack Obama segurando no braço de Lula da Silva em Abril durante a cimeira do G20 em Londres, como se tentasse obter do presidente brasileiro os ingredientes da alquimia que compõem o sucesso da presença do Brasil em África.
Um segredo bem guardado mas exposto totalmente ao mundo através da visível particularidade de pontos comuns que fizeram evaporar o Atlântico reconciliando e unindo o Brasil e África.
Rui Neumann |